domingo, 24 de maio de 2009

Precisam-se comentários

Gostaria de vos deixar aqui um pequeno excerto de algo em que ando a trabalhar à um par de semanas. Perdido um pouco por entre o turbilhão de palavras e vírgulas, sinto uma certa urgência em ouvir alguma opinião...o motivo pelo qual...talvez um bastante infantil de querer ouvir o que os outros lhes parece...

"Tentava manter o meu olhar distante. Seguia os cabos que percorriam as paredes dos túneis, olhava para os padrões dos azulejos de cada estação, via as luzes a passar; deixava-me hipnotizar por toda aquela pequena viagem, pelo embalar do vagão, pelo zumbido das rodas nos carris - estava num dentro de um próprio transe, longe dali, pensando nela, pensando nos seus enormes olhos, no seu olhar, na sua figura de sombra deslizante a percorrer a inclinada velha cidade, a mais enrugada Lisboa, a subir as ruas com pedras da calçada levantadas pelo tempo e lavadas pelas chuvas e um Inverno que começou a sua despedida.
E tu Sandra, percorrendo-as com teu passo leve e lesto, com tua presença éterea, com teu deslizar de espírito livre, de sombra despegada, iluminada por candeeiros centenários de luz alaranjada, que te acompanham pelo imenso labirinto de casas que já viram e ouviram imensas tragédias e comédias - teatro mais verdadeiro que a própria vida, mais belo que a própria vida, palco das maiores histórias de amor que começam com um bejo e acabam com uma amarga despedida, e quão doce não continuou a ser aquele beijo, e quem não desejaria melhor cenário.
O Tejo sempre acompanhando-te até casa, o Castelo olhando sempre sobre teu ombro com seu olhar ameaçador mas preocupado de pai severo que nunca abandona a vígila sobre seus filhos.
Sandra, onde vives? Na velha Lisboa, já eu sei, mas a mais velha colina é um labirinto que apenas revela seus verdadeiros caminhos a quem realmente lá pertence. Tu pertences a Lisboa Sandra...?
Tu vives no labirinto perigoso, tragicamente perigoso que é a velha colina do Castelo, mas serás tu de Lisboa? Será que teus cabelos têm reflexos do mover do Tejo? E tua pele um mapa de todas as velhas ruas, imperceptível ao calor do Sol e ao Luar, apenas revela seus caminhos à luz dos candeeiros e torchas do labirinto? Consegues chegar até casa de olhos fechados, guiando-te pelos sons próprios de cada rua, pela maneira como as pedras da calçada estão dispostas debaixo de teus pés?
Sandra, onde vives? Mostra-me onde vives. Mostra-me as tuas ruas. Mostra-me o labirinto onde tantas tardes me perco, onde tantas tardes me abandono ao total vaguear sem destino e sem orientação, apenas percorrendo rua atrás de rua, apenas andando sem saber onde e sem saber onde quero realmente chegar, e parece que nunca chego a lado algum - uma rua estreita vai dar a outra, e a próxima vai dar a outra mais, até eventualmente chegar à Baixa, sem fazer ideia de como lá cheguei, e que caminhos percorri, não conseguindo dizer que percurso fiz, vendo-me frustrado de não conseguir voltar a fazer o mesmo percurso, perdendo-me num próprio labirinto que criei em volta dos candeeiros e das paredes fendidas. E então já é de noite, e o final de tarde fugiu-me por entre os passos perdidos que cansei pela colina. Alfama, perco-me em ti quase no final de quase todos os dias, e hoje em vez disso, perdi-me em ti, em teus olhos Sandra. Mostra-me teus olhos e como chegar até ti Sandra..."

-excerto de "Finais de tarde desencontrados"(título de trabalho)

espero comentários não só por aqui...
ficaria bastante agradecido

6 comentários:

  1. Rapaz, a tua escrita actual está a anos-luz dos pequenos retalhos que me mostravas quando ainda éramos apenas dois adolescentes a desabrochar. Gostei imenso. Há força nas palavras. O carácter descritivo com que desenvolves o sentimento... Epá, não estava à espera. Mesmo.

    ResponderEliminar
  2. pouca gente deve conhecer tão bem uma cidade, tomando-a com tanta intimidade que a sua geografia encontra na geografia psicológica de cada uma de tuas personagens tão bonitos paralelismos.. sou projectada nesse espaço de ruas íngremes e apertadas, cheias de virgulas e frases compridas, e dou por mim acelerando a leitura, "correndo" e guardando o fôlego até às reticencias seguintes... talvez a única coisa que me distraia da tua história seja uma ou outra precipitação exagerada fruto dessa tua pressa.. nada que não se resolva com uma pequena revisão na construção de algumas frases, ou numa ou outra repetição.. coisa sem importância.
    o sumo nas palavras, o interesse, isso não tenho duvidas.. alias, quem sou eu.. continua a escrever claudio, fiquei suspensa naquelas ultimas reticencias, quero mais :)
    **

    ResponderEliminar
  3. Bem, ao menos estás presente aqui. Infelizmente ler estas palavras não é tão satisfatório como te ouvir a proferi-las live ;_; Mas ainda há coisas que ainda não percebi. Depois falamos, que um comment blogueiro não chega.

    ResponderEliminar
  4. confesso que me é díficil tirar uma conclusão breve do que escreveste. também me custa comparar com o que li que tenhas escrito antes, visto que foi mesmo pouco. verdade seja dita, eu gosto assim. é fluente, apesar de, algumas vezes, ser um pouco difícil (parece-me) compreender exactamente o que pretendes e acabo por me perder um pouco nas frases (tão) intermináveis e, talvez, pedindo por uma pausa. eu gosto da comparação implicita aqui, assim, essa associação entre duas realidades, quase que coladas uma à outra com poucos elementos que as associem logo de caras, também gosto da gradação nas interrogações, dão bem mais intensidade (ou pelo menos estou a interpretá-las assim, intensas) e claro, o paralelismo personagem-cidade e todas essas ligações disfarçadas por uma aproximação mais afectiva e menos lógica do mundo envolvente ou, neste caso, lisboa.
    e pronto, com isto me calo ou ainda começo para aqui a divagar, as divagações deixo-as para uma conversa qualquer. *

    ResponderEliminar
  5. Ora bem, não te irei elogiar, nem pavonear.
    Quero apenas sublinhar o facto de que a questão de Lisboa não é uma exclusividade. Não é uma singularidade com a qual impregnaste o teu ser. Ela é concerteza o reflexo de uma forma de viver.
    Este é o exemplo mais luminoso, de como os cenários, as cores, as formas e as pessoas (...) se apoderam do teu pensamento.Sendo posteriormente processados em reinvenções ricas e brilhantes. E transbordam de ti mesmo, porque não consegues conviver sozinho com o deslumbre.

    Beijo

    ResponderEliminar
  6. Gostei muito. Arriscas, e sais-te bem. Quanto ao resto, faço minhas as palavras do Sunderland: quero ouvir-te a dizer este texto e, se possível, a sua continuação. A mesa está reservada na Casa do Alentejo.

    ResponderEliminar